Acasos da vida

 

 


Porque escrevo e gosto de escrever? As palavras, as frases, os parágrafos fluem com facilidade, corrijo pouco. Durante muito tempo não soube a explicação para esta competência. Sem formação académica, sem antecedentes na família, não me ocorria qualquer explicação.

Em criança fui submetido a uma cirurgia complicada, num hospital de província. Aquela época a técnica de anestesia era de «garrafão» e como consequência uma parte, talvez 50% ou mais, da minha memória autobiográfica perdeu-se para sempre: é como se uma parte da minha vida nunca tivesse existido, não recordo não vivi.

Em adulto comecei a perceber que a memória tinha falhas, que tinham acontecido coisas que mal recordava. Um médico explicou-me o que se passava: a natureza resolveu compensar-me, a perda da memória autobiográfica desenvolveu a memória semântica, ligada à linguagem e outras funções abstractas.

Nenhum mistério nem nenhum talento herdado, fui a natureza que fez o seu trabalho. Uma compensação para muitas coisas que correram mal.

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publicado por pimentaeouro às 08:23