Envelhecendo #2

 

 


Completei hoje 78 anos de vida, vida mal e bem vivida, ou perto disso. O corpo humano não está programado para chegar a estas idades, é contra natura.

Há poucos séculos a esperança média de vida rondava os 40 anos e daí para cima havia poucas  excepções .

Ao longo destes 78 a minha história de vida poderia, por tres vezes, ter percursos diferentes, poderia ter vivido de forma completamente diferente, nestas encruzilhadas, o acaso decidio mais do que o meu livre-arbitrio: já aconteceu tudo, nada pode ser mudado mas a memória desses acontecimentos e das pessoas em que o rumo da minha vida poderia ter mudado está viva.

Acontece que hoje vivemos mais em condições que nem sempre são as melhores: as diversas  «peças» que compõem o corpo tem relógios biológicos com idades diferentes, umas envelhecem mais cedo do que outras e começam a colapsar. A degradação de uma «peça» pode afectar o funcionamento de outras e assim a máquina vai progressivamente desafinando até ao colapso final.

Cheguei aqui com alguma perplexidade ( viver também cansa) e sei que estou a entrar na zona vermelha das doenças da senilidade. As doenças físicas limitam a mobilidade e aumentam as dependências, as doenças mentais, principalmente a memória e a consciência aumentam o vasio da vida e a falta de sentido para continuar.

Há quatro anos apareceu-me a nevralgia do triogémio, cujas dores são pavarosas. Durante três 

anos e meio a nevralgia esteve controlada com a Hidantina, mas em Novembro do ano passado reapareceu. Foi acrescentado novo fármaco, a Gabatentina, mas as dores reapareceram há duas semanas.

Fiquei a saber que o aparecimento de novas crises é incontrolável e que a donça pode reaparecer. É uma doença neurológica que me preocupa seriamente.

Hoje sou uma sombra de mim, a sombra de um homem que já não existe e nunca na minha vida senti tanta solidão como agora.


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publicado por pimentaeouro às 22:39