Envelhecendo

 

 



Estou atento a todos os sinais: a visão diminuiu, a audição também. A caligrafia tornou-se tremula, o andar é hesitante e vagaroso, o corpo cede ao desgaste geral. Cada inverno que passa é mais comprido e frio do que o inferno anterior. O frio é um tormento.

A maior parte dos familiares e amigos já faleceu ( que faço eu cá ? ), a solidão e a tristeza acompanham-me com mais assiduidade. Brevemente farei 78 anos e os 80, a entrada para o clube dos velhos muito velhos), está muito perto.

Nunca esteve no meu horizonte de vida chegar a esta idade e começo a pensar que a morte também tem esquecimentos e falhas provisórias. O aumento da  esperança de vida a que acedemos não é normal, nunca o homem viveu tanto tempo nem sabe o que fazer com ele - a sociedade muito menos - não tem soluções para esta velhice generalizada. As mulheres vivem melhor a velhice do que os homens, são mais abertas, mantêm pouco degradada a sua natureza de boas conversadoras e estabelecem relações com facilidade.

Vivo da memória  remota, da mocidade, dos amores falhados, da mágoa que deixaram mas que gosto de recordar, paradoxos dos encontros e desencontros que me aconteceram e que eu não comandei, foram alheios à minha vontade. A memória geografica de lugares, casas ruas e cafés onde o convivio era fácil e são.

A consciência está lúcida e é ela que irá decidir o fim da jornada.

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publicado por pimentaeouro às 16:07