Não chores mais

 

 

Amor, não chores mais, cessa o teu pranto. Aproxima-te da janela para poder acariciar-te. Suavemente, passo os dedos pelos teus cabelos, beijo a teu testa, o teu rosto, não me atrevo a beijar os teus lábios, podia magoar-te. Fixo o meu olhar nos teus olhos e vejo no fundo deles a tua mágoa, o teu sofrimento, a tua humilhação e revolta.

Faço um esforço para que lágrimas teimosas não saiam dos meus olhos. Não posso abraçar-te, olhos indiscretos poderiam espiar-nos. Não tenho palavras, só gestos de carícia com que procuro aliviar o teu sofrimento.

Não sei quanto tempo já passou sobre a nossa impotência junto à janela da tua casa. A nossa juventude foi agredida, mutilada e ficámos marcados para o resto das nossas vidas.

Temos que separar-nos definitivamente, cada um de nós terá destinos separados e diferentes. Voltarei a ver-te alguma vez?

Até hoje, volvidos mais de cinquenta anos não voltamos a reencontra-nos. Perguntei-me muita vez se eu merecia o teu sofrimento, se não teria sido melhor nunca ter-te conhecido.

Pela minha parte, não seria perseguido pela recordação do teu pranto e não consigo adivinhar que recordações terás daquele namoro efémero e infausto.

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publicado por pimentaeouro às 00:15