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Sábado, 04 DE Fevereiro DE 2017

Envelhecer

Eu e a velhice, frente a frente. Lentamente, mas com persistência, a decadência apodera-se de mim: aumentam as disfunções,  órgãos que já não conseguem desempenhar eficazmente as suas tarefas ( audição, vista e outros).

Mais velho, mais limitado: a energia, a vontade, a esperança esmorecem.

A vida vai ficando distante.

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publicado por pimentaeouro às 19:16
Sábado, 28 DE Janeiro DE 2017

Sofrimento

Resultado de imagem para sofrimento 

 

Há dez anos que a minha mulher sofre de neuropatia periférica, uma doença rara, sem cura e sem medicação especifica. Afecta-lhe os pequenos nervos das pernas e caminha «sobre brasas»: há cinco anos que a dor tornou-se crónica, dói todos os dias, apenas nuns dias dói menos, noutros dias dói mais, assim até à morte se a doença não se agravar, coisa que os médicos não sabem.

Tem o sofrimento estampado no rosto e está muito magra e debilitada. Não acredito em Deus para pensar que é um castigo para ela e para mim e também não é conhecida a causa da doença, é uma tragédia que se abateu sobre nós. 

Apesar do sofrimento consegue ter boa disposição, eu não, sei que está a sofrer. Num comportamento inqualificável os dois filhos não querem saber da mãe, não sei como se pode ser tão desumano.

Nunca imaginei que a minha velhice pudesse ser tão triste.

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publicado por pimentaeouro às 18:50
Sexta-feira, 23 DE Janeiro DE 2015

Dor

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A vida é mãe e também madrasta muitas vezes e guardou-me a taça mais amarga para a velhice. Antes queria veneno letal. A minha mulher tem o sofrimento  e a dor - dor crónica -  estampados no rosto. Perdeu a vivacidade e a alegria que sempre lhe conheci: os olhos estão tristes, os lábios deixaram de sorrir.

Está quase acamada  a dor não cessa de aumentar e a minha tristeza também. Dante não conheceu este inferno e eu dava tudo, a pouca vida que me resta, para resgatá-la de um sofrimento que não tem cura. Beijo meigamente a sua testa e murmuro "é para disfarçar a minha tristeza e a minha vontade de chorar".

O meu animo desfalece e tenho de encontrar força, não sei onde, para tentar minorar o seu sofrimento.

publicado por pimentaeouro às 22:10
Sexta-feira, 19 DE Dezembro DE 2014

Outros tempos 2

 

Correr atrás do passado é correr atrás do vento, jamais o alcançaremos. Os acontecimentos que vivemos outrora foram apagados pelo Tempo e uma parte das pessoas que recordamos já morrerem.

Todavia apesar de quase tudo ter desaparecido ou mudado (casas, ruas, paisagens) a nossa memória «reconstrói» parcelas aleatórias do nosso passado e sentimos, de novo, emoções com essas recordações.

É como estar a ver episódios de um filme rodado há quarenta ou cinquenta anos. Os actores já morreram, a sala já não existe, mas vimos a projecção da sua imagem e voltamos a emocionar-nos.

A nossa memória desencadeia emoções, como qualquer acontecimento externo do presente: apanhamos por breves momentos o vento.

A memória traz-nos alegrias ou sofrimentos, raramente o que é irrelevante ou não nos afectou emocionalmente. Amizades, familiares, amores, êxitos, fracassos, inimizades, etc.

A memória é muito caprichosa e ainda não sabemos bem como funciona, ela e a sua prima esquecimento. A «Idade de Ouro», a «minha época» é considerar o passado como melhor do que o presente. O saudosismo (entre nós Sebastianismo) também remete para uma época melhor do que o presente.

A memória é uma espécie de disco rígido avariado da nossa história de vida. Ela regista fragmentos isolados, bons ou maus, da nossa vida.

Se tivemos uma infância e uma adolescência felizes, a memória não recordará tristezas, pelo contrário, se aquelas duas épocas da nossa vida foram difíceis, a memória não poderá recordar felicidades.

A memória é também subjectividade, muita, dentro de um ser subjectivo; é preciso cuidado com ela.

O homem é subjectivo por natureza e pela sua secunda natureza, a sociedade que ele próprio criou mas  necessita de objectividade e de certezas para que o seu dia a dia e a relações com os outros não sejam caóticos. Sem objectividade a nossa vida quotidiana seria impossível, nem sequer haveria horários de comboios, mas é na ciência que ele realiza a sua procura da objectividade.

Os meus problemas de memória – falta de memória – remontam à minha infância e uma parte importante da minha vida não existe nela é como se não tivesse vivido. Para eu tudo não seja negativo a  memória apaga-me muitas tristezas, que apenas existem como um nevoeiro.

 

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publicado por pimentaeouro às 23:36
Sábado, 06 DE Dezembro DE 2014

Fizeste-me muita falta

 

 

O meu irmão mais novo, o unico que tive, faleceu com cinco ou seis anos de idade. Só soube o seu falecimento passados alguns anos e nunca soube  a causa da sua morte.

Apenas estivemos juntos uma ou duas vezes. Era alegre como um passaro, era o Sol. Com a sua morte fiquei mais pobre e com mais solidão e a minha mãe, que já me tinha perdido, ficou mais infeliz . A história é mais complicada do que aqui estou a contar, é tudo, muito pouco, o que consigo escrever.

Nunca tive fotografias de família e minhas só meia duzia. Agora fazem-me mais falta, preciso  ver com mais nítidez as  suas feições, torná-las mais reais e sentir a sua presença.

Sei que voas sobre um campo de girações, talvez à minha espera. Quem sabe?

publicado por pimentaeouro às 23:28
Domingo, 09 DE Novembro DE 2014

Passado longinquo

 

 

Sou como o narrador do conto "O fogo  e as cinzas" de Manuel da Fonseca, um velho falhado. Como ele roo o osso da memória, das memórias que me assediam mesmo que eu não queira. Regresso aos tempos longínquos da minha mocidade vivida em Torres Novas. Os dias corriam suaves, sem preocupações, com esperanças que se desfizeram. Sem que eu soubesse porque, a vida queria castigar-me uma vez mais.

Eu era um estranho, recem-chegado e duas mulheres escolheram-me: ainda hoje não sei porque, o que acharam em mim, com uma figura meio triste?

As escolhas do coração não passam pelo filtro da razão. Amamos e é quanto basta, na mocidade não existem cálculos de patrimónios, de bens herdados ou a herdar. Isso, só acontece mais tarde e não acontece sempre, o século XIX já lá vai.

  O meu primeiro amor foi com a tua irmã  (lembras-te, António? ) e a sua recordação ficou gravada nos recantos sinuosos da  memória. Recordo com saudade a tua ternura, a alegria dos teus olhos, os beijos ternos que trocamos, quase roubados.

.Namoro curto, igual a todos os namoros daquela época e terminou com uma imposição que, inexperiente, não soube contornar. Seguidamente namorei com a Julieta Fradinho, natural de Silves, filha de um funcionário do Tribunal, que terminou brutalmente com a proibição categórica do pai, à boa maneira do século XIX.

Visto de fora, eu era um rebenta corações, na realidade, eu é que fiquei rebentado: para um jovem de vinte e poucos anos que se inicia   nos caminhos tortuosos do amor, dois insucessos seguidos deixam marcas fundas. Apesar disto, por estranho que pareça, tenho uma recordação muito grata – nos sentimentos não existe racionalidade - da Fernanda e da Julieta.

Não comentei estes insucessos com ninguém, lambi as feridas em solidão. Talvez por ter feito este recalcamento, agora tenho uma necessidade irreprimível de falar e escrever sobre eles.

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publicado por pimentaeouro às 19:33
Terça-feira, 28 DE Outubro DE 2014

Ainda está zangada?

FERNANDA SILVA.jpeg

 

Ainda estás zangada comigo, Fernanda? Estamos na idade do perdão e espero que consigas perdoar-me. Cometi um erro, de que me arrependo, naquela noite infausta que aconteceu à mais de 50 anos.

Em poucos minutos mudamos irremediavelmente o curso das nossas vidas. Provavelmente, até foi bom para ti não teres casado com um homem inseguro, complicado, cuja vida seguiu caminhos sinuosos que não são normais. Um homem que nunca teve ambições e que desperdiçou a vida atrás de ideais que nunca se concretizaram. Perdi o teu amor e, provavelmente, não tive outro igual: são perguntas a que não sabemos responder.

Ambos mudamos, já não és a rapariga bonita (não quero dizer que já não o seja) e alegre que conheci há mais de cinquenta anos, eu também mudei mas continuo magro e triste como me conheces-te.

 

É a memória que manda em nós, não somos nós que comandamos a memória.

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publicado por pimentaeouro às 22:27
Domingo, 12 DE Outubro DE 2014

Envelhecendo

tristeza.jpg

  

Vejo menos, oiço menos, canso-me mais a andar, tenho mais fadiga. Tenho menos capacidade de concentração, menos vontade de escrever. Não adianta continuar, são tudo privilégios da velhice... em plano inclinado.

Visito mais o passado, o meu percurso, a minha história de vida. Ao contrário do que muitos afirmam, se pudesse viver duas vezes, varia muita coisa de forma diferente. Quando começamos a aprender estamos a chegar ao fim.

 

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publicado por pimentaeouro às 12:33
Quinta-feira, 18 DE Setembro DE 2014

Um fantasma

 

FERNANDA SILVA.jpeg

 

 

Se há uma coisa certa no mundo é exactamente esta: o passado não voltará a acontecer de novo.

 

Anónimo

 

 

 

É sabido que a memória dos velhos se altera, perdem a memória do passado recente e recuperam a memória do passado remoto: quarenta anos, cinquenta e mais anos. A memória de longo prazo é a cinza de uma lareira apagada.

 

Ficam a viver uma situação intermédia entre presente e passado antigo. Ficam, quase, como fantasmas.

 

Sou um desse «fantasmas» e frequentemente regresso aos anos 55 e 60 do século passado, os anos da minha mocidade que não foi fácil nem primaveril.

 

Como a maioria dos portugueses vivi na pobreza envergonhada e triste, no conservadorismo serôdio do regime de Salazar. Cheguei a Torres Novas no ano de 1.954, como uma espécie de emigrante. Vinha de uma terra pobre para uma terra menos pobre e trazia na bagagem dois pesos, uma infância infeliz sem mãe e sem pai e uma adolescência triste.

 

Já não me lembro como aconteceu, acabei por ser integrado num grupo de jovens da terra, mais ou menos com a minha idade, com duas ou três excepções. Amizades sinceras, solidárias, os nossos encontros de café eram uma mistura de conversas soltas e de convívio lúdico. Para mim, estas amizades foram muito importantes.

 

Por obra do acaso – o grande fazedor de vidas – conheci a Fernanda. A minha memória não consegue lembrar quando nos conhecemos, talvez na primavera de 1.957 e deverias ter 17 ou 18 anos (?).

 

Alta, elegante, olhos e lábios sorridentes, eras extrovertida, alegre e afectuosa. Não é lisonja dizer que eras uma das raparigas mais bonitas de Torres Novas - pelo menos aos meus olhos – e não deveriam faltar-te pretendentes.

 

Porque foi eu o escolhido? A química dos sentimentos é indecifrável. Do  conhecimento ao namoro o caminho foi curto, na mocidade a atracção é forte, inadiável.

 

- Aceito o teu pedido de namoro – disseste, mas tens de pedir autorização ao meu pai.

 

Era uma vassalagem obrigatória, que eu cumpri e fui ter com o teu pai com o coração aos saltos e o estomago colado às costas. Em troca foi-me dado o «foral» com o calendário, o horário do namoro (limite máximo até às 23,00 horas), e… juizinho!

 

O António, irmão mais velho de Fernanda, fazia parte do círculo de amigos que eu frequentava e penso que esse conhecimento deve ter pesado favoravelmente na decisão paternal, uma vez que eu era um desconhecido no meio, era um desconhecido e um pé rapado.

 

Não temos várias vidas para viver – nem passadas, nem futuras, nem no céu – temos apenas várias hipóteses de vida que dependem de diversas circunstâncias, e apenas uma história de vida, aquela de vivemos.

 

Por três ou quatro vezes, a minha vida poderia ter seguido rumos diferentes, poderia ter tido outras histórias de vida. O acaso, não opções conscientes, decidiu o caminho que trilhei. 

 

O nosso namoro era, certamente, igual a todos os namoros daquela época: um ritual com regras estabelecidas e controladas pelos pais para cumprir uma finalidade, o casamento.

 

Foi para mim o primeiro namoro e tardio. Com ingenuidade e a inexperiência da mocidade, o nosso namoro era bordado de coisas simples, era a procura hesitante do conhecimento do outro, o despontar dos afectos, dos sentimentos. Foi um namoro sereno, sem discussões,  ou conflitos: é assim que a minha memória o recorda. Estarei enganado?

 

Namorávamos com a luz acesa, como se estivéssemos em exposição – estávamos em exposição! – e os beijos eram roubados, escondidos.

 

Namorávamos há cerca de três meses (?) quando aconteceu aquela noite nefasta que mudou as nossas vidas. Um Deus sádico, daqueles que se divertem com o infortúnio das mulheres e dos homens, empurrou-nos de uma ravina e ambos caímos.

 

Poucos minutos depois de começarmos a conversar sobre coisas pequenas do quotidiano, tomas-te um ar sério e tenso, pouco habitual em ti, e disseste - Preciso que me prometas uma coisa, que casas comigo.

 

Fiquei surpreendido com o pedido, que não esperava. - Mas porquê essa promessa - respondi meio confuso?

 

Insististe que tinha de  garantir-te  que casávamos. Tentei argumentar que o nosso namoro era recente, que precisávamos de nos conhecer melhor, etc., Esgotei argumentos sem qualquer sucesso. O que estava a acontecer? Parecia-me que a voz impositiva de outra pessoa falava através de ti, não eras tu quem falava.

 

A promessa teria sido muito fácil e não cumpri-la também, queimar tempo, deixar correu as coisas, etc. e quando me apetecesse romper o namoro. Não seria o primeiro, nem iria ser o último, mas esta hipótese, não me passou  pela cabeça.

 

Não tinha a mínima consciência que estava a pisar terreno sagrado e que apenas tinha uma opção: prometer o casamento, mesmo com reserva mental.

 

A tua firmeza aumentou e finalmente a sentença, - Se não prometes casar comigo, o namoro acaba já!

 

Porquê tudo ou nada, Fernanda? O que estava errado no namoro - em mim?  Era um impulso pouco reflectido da tua mocidade?

 

A minha confusão aumentou, a capacidade de argumentar diminuiu, era uma situação  incompreensível para mim. Ainda hoje não compreendo o que se passou naquela malfadada noite e, acredita, entregava a alma ao Diabo para saber.

 

Talvez nenhum de nós esperava  que o namoro acabasse naquela noite, mas foi isso, precisamente,  que aconteceu. Nenhum de nós mediu as consequências daquilo que disse: precipitámo-nos para a queda.

 

É extraordinária a facilidade com que um desencontro  pode acontecer e mudar a vida de duas pessoas.

 

Agimos os dois com  falta senso?  Mudámos o rumo das nossas vidas para sempre.

 

Que mais poderia eu desejar do que casar contigo e ter, finalmente, uma família, uma família que nunca tive?

 

Retirei-me meio atónito, os sentimentos em grande confusão, dorido, sentia-me magoado. Pela primeira vez a ternura feminina tinha entrado na minha vida e, de súbito, esfumava-se.

 

Não entendia o que se estava a passar connosco.

 

Seguiram-se dias, semanas, meses de confusão, de sentimentos contraditórios, lentamente, o tempo encarregou-se  de me conformar com a tua perda mas deixou  marcas: doeu Fernanda.

 

 Para ti também foi doloroso, se não prometia casar era porque não te amava. Sentiste-te desprezada, o amor fugia-te e o casamento também. Que coisa estúpida, uma separação que ambos não desejávamos. Fui tão néscio que nem isto me passou pela cabeça e fui também o único parvo que recusou fazer aquela promessa.

 

Uma asneira nunca vem só, e a seguir fiz outra maior: não voltei a procurar-te. Que absurdo. Afinal, que teria a perder? Não insisti, não lutei por um amor que desejava. Como pude ser tão insensato?!

 

Se,  (a vida não é feita de ses), se… não tivesse ocorrido aquela triste contingência teria casado, contigo, teríamos tido dois ou três filhos e teria ficado a viver em Torres Novas, mas esta história de vida não aconteceu, nunca  foi escrita.

 

A minha vida sempre oscilou entre dois eixos, a passividade e a intranquilidade e  tu talvez conseguisse serenar a minha inquietação.

 

A minha vida sentimental começava mal, seguiu-se outro insucesso com a Julieta – tu, a Julieta e eu, eramos três jovens que procuravam amar, mas como em tudo na vida uns conseguem, outros não.

 

 Porque motivo, há distância de mais de meio século, tenho necessidade desta conversa contigo? Talvez porque até hoje contínuas presente na minha memória, fizeste parte da minha vida, sem termos vivido em comum: num curto período as nossas vidas cruzaram-se:  o primeiro amor nunca se esquece, apenas se refugia nos recantos da memória.

 

A narrativa que acabo de fazer corresponde às recordações da minha memória (má),  não confio nela, posso estar errado. Tens certamente recordações da tua mocidade e deste namoro que serão diferentes das minhas (poderei estar a omitir factos de que não me lembro): a mocidade é um dos períodos mais importantes da nossa vida, por isso escrevo esta espécie de testamento sentimental: é na velhice que as recordações da mocidade são mais importantes.

 

 

 

- Fernanda, quero pedir-te um favor, perdoa a insensatez de um homem que desiludiu a tua esperança.  Foi neste desencontro absurdo que o rumo da minha vida mudou pela primeira vez.

 

A vida  nunca pára, e também não parou para nós: casas-te com o Arlindo, (conheço-o?) tiveste filho e netos, percorres-te a história da tua vida e, com toda a sinceridade, desejo que tenhas sido feliz com o teu marido e  a tua  família.

 

Eu, segui a minha errância e  solidão por terras e pessoas, uma vida que teve outras encruzilhadas,  histórias de vida que não se concretizaram.  Casei, foi feliz, foi infeliz. Se não vivi melhor foi porque não soube.

 

Se a doença da minha mulher permitir, espero encontrar-te brevemente: estamos na idade de perdoar os erros, os dos outros e os nossos, gostava que me recordasses como um homem que te amou e errou e não como alguém que te decepcionou.

 

 

 

 

 

P.S. A doença que martiriza e teu irmão António é uma crueldade da vida.

 

 

 

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publicado por pimentaeouro às 00:12
Sábado, 13 DE Setembro DE 2014

Não chores mais

 

 

Amor, não chores mais, cessa o teu pranto. Aproxima-te da janela para poder acariciar-te. Suavemente, passo os dedos pelos teus cabelos, beijo a teu testa, o teu rosto, não me atrevo a beijar os teus lábios, podia magoar-te. Fixo o meu olhar nos teus olhos e vejo no fundo deles a tua mágoa, o teu sofrimento, a tua humilhação e revolta.

Faço um esforço para que lágrimas teimosas não saiam dos meus olhos. Não posso abraçar-te, olhos indiscretos poderiam espiar-nos. Não tenho palavras, só gestos de carícia com que procuro aliviar o teu sofrimento.

Não sei quanto tempo já passou sobre a nossa impotência junto à janela da tua casa. A nossa juventude foi agredida, mutilada e ficámos marcados para o resto das nossas vidas.

Temos que separar-nos definitivamente, cada um de nós terá destinos separados e diferentes. Voltarei a ver-te alguma vez?

Até hoje, volvidos mais de cinquenta anos não voltamos a reencontra-nos. Perguntei-me muita vez se eu merecia o teu sofrimento, se não teria sido melhor nunca ter-te conhecido.

Pela minha parte, não seria perseguido pela recordação do teu pranto e não consigo adivinhar que recordações terás daquele namoro efémero e infausto.

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publicado por pimentaeouro às 00:15
Domingo, 31 DE Agosto DE 2014

Três anos



Foi no passado dia 23 e eu esqueci-me. Ocorreu o terceiro aniversário de Livro Velho no labor de blogar. Quando comecei não sabia quando iria acabar: um mês? Seis meses? Hoje também não sei quando terminarei, tenho uma certeza: daqui para a frente tudo será diferente. Tenho menos energia, mais limitações, menos vontade. O tempo ditará a sentença final

Como em anos anteriores, será uma comemoração modesta, com menos vizinhos, vão ficando pelo caminho.

Para mim tem sido uma experiência frutuosa, existem blogues de boa qualidade e apenas lamento não poder dedicar mais tempo à sua leitura. Não destaco nenhum porque iria cometer omissões.

Acerca do meu objectivo principal, divulgar parte do que aprendi e que me doeu, não posso ser juiz em causa própria. Fica a intenção.

Os tempos de correm são propícios ao desânimo e à indiferença. Até a ironia esmorece.

Um vizinho, reformado como eu, ofereceu-me um bolo de aniversário. Quem quiser, pode entrar o servir-se.

Passem todos bem.
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publicado por pimentaeouro às 17:54
Sábado, 26 DE Julho DE 2014

Velhos muito velhos

 

 

Os 79 já passaram. O relógio da vida iniciou a contagem decrescente para a faixa dos 80 que, segundo os demógrafos é a idade dos velhos muito velhos.

É a idade, mais ano menos ano, da decadência, das demências, das doenças do cérebro que podem ir até a perda da consciência. Uma minoria de privilegiados consegue escapar a este calvário.

Pela parte que me toca, quero celebrar um pacto do o Diabo, Ele leva-me quando quiser mas deixa-me lúcido até à data da minha partida: quero ir recordando o meu percurso de vida, os meus erros, os afectos tardios, encontros e desencontros, as mulheres, poucas que amei, os amigos.

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publicado por pimentaeouro às 17:27
Quinta-feira, 26 DE Junho DE 2014

Nomadismo

 

 

Milhares de anos de vida nómada devem ter deixado marcas fundas nos nossos genes: a sedentarização aconteceu ontem.

Fui um seminómada, cá dentro, sem dama à minha espera, Santo Graal para demandar e escudeiro para me ajudar. Parecido com D. Quixote apenas na altura e na magreza.

Frugal como convém a qualquer cavaleiro, não realizei proezas, nem criei raízes, apenas ficaram bons amigos nos vários locais por onde passei.

Cada encruzilhada levava-me a novos caminhos sem desígnios, apenas estadias transitórias, uma vida errante e os  erros subejaram.

As peregrinações ensinaram-me a cultivar o silencia e a procurar o que está depois das aparências.

Não parto amargo, nem desiludido, foi assim que vivi, nada mais.

 

 

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publicado por pimentaeouro às 21:14
Sexta-feira, 13 DE Junho DE 2014

Ilusões

 

 

Vivo de ilusões. A ilusão de encontros que não se realizarão, de conversas que não terei, de afectos que não receberei.

A ilusão para soportar o drama em que vivo.

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publicado por pimentaeouro às 22:17
Terça-feira, 13 DE Maio DE 2014

O cálice mais amargo

 

A vida reservou-me para a velhice o cálice mais amargo, como se fosse o último castigo de um malfeitor. A juntar aos meus problemas de saúde, que são graves, a minha mulher é vítima de uma doença rara, neuropatia periférica.

Não procuramos remédio para uma cura que não existe, procuramos remédio, que não há, para minorar a dor crónica. Os poucos medicamento que há, têm falhado. Em último recurso tomou Durogesic, transdérmico, a morfina que é prescrita aos doentes terminais, e os efeitos secundários foram tão violentos que teve de deixar de tomá-lo. 

Só recentemente é que neurologistas e neurocirurgiões começaram a estudar os mecanismos cerebrais que provocam a dor crónica. Por enquanto há poucas novidades.

Agora a última esperança é experimentar canabis medicinal que é ilegal entre nós e difícil de obter.

Os problemas de saúde que tenho parecem-me insignificantes comparados com o sofrimento dela. Não encontro palavras para descrever o drama em que vivo, é a maior tristeza da minha vida: é uma vida sem esperança.

publicado por pimentaeouro às 14:41

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