Um fantasma

 

FERNANDA SILVA.jpeg

 

 

Se há uma coisa certa no mundo é exactamente esta: o passado não voltará a acontecer de novo.

 

Anónimo

 

 

 

É sabido que a memória dos velhos se altera, perdem a memória do passado recente e recuperam a memória do passado remoto: quarenta anos, cinquenta e mais anos. A memória de longo prazo é a cinza de uma lareira apagada.

 

Ficam a viver uma situação intermédia entre presente e passado antigo. Ficam, quase, como fantasmas.

 

Sou um desse «fantasmas» e frequentemente regresso aos anos 55 e 60 do século passado, os anos da minha mocidade que não foi fácil nem primaveril.

 

Como a maioria dos portugueses vivi na pobreza envergonhada e triste, no conservadorismo serôdio do regime de Salazar. Cheguei a Torres Novas no ano de 1.954, como uma espécie de emigrante. Vinha de uma terra pobre para uma terra menos pobre e trazia na bagagem dois pesos, uma infância infeliz sem mãe e sem pai e uma adolescência triste.

 

Já não me lembro como aconteceu, acabei por ser integrado num grupo de jovens da terra, mais ou menos com a minha idade, com duas ou três excepções. Amizades sinceras, solidárias, os nossos encontros de café eram uma mistura de conversas soltas e de convívio lúdico. Para mim, estas amizades foram muito importantes.

 

Por obra do acaso – o grande fazedor de vidas – conheci a Fernanda. A minha memória não consegue lembrar quando nos conhecemos, talvez na primavera de 1.957 e deverias ter 17 ou 18 anos (?).

 

Alta, elegante, olhos e lábios sorridentes, eras extrovertida, alegre e afectuosa. Não é lisonja dizer que eras uma das raparigas mais bonitas de Torres Novas - pelo menos aos meus olhos – e não deveriam faltar-te pretendentes.

 

Porque foi eu o escolhido? A química dos sentimentos é indecifrável. Do  conhecimento ao namoro o caminho foi curto, na mocidade a atracção é forte, inadiável.

 

- Aceito o teu pedido de namoro – disseste, mas tens de pedir autorização ao meu pai.

 

Era uma vassalagem obrigatória, que eu cumpri e fui ter com o teu pai com o coração aos saltos e o estomago colado às costas. Em troca foi-me dado o «foral» com o calendário, o horário do namoro (limite máximo até às 23,00 horas), e… juizinho!

 

O António, irmão mais velho de Fernanda, fazia parte do círculo de amigos que eu frequentava e penso que esse conhecimento deve ter pesado favoravelmente na decisão paternal, uma vez que eu era um desconhecido no meio, era um desconhecido e um pé rapado.

 

Não temos várias vidas para viver – nem passadas, nem futuras, nem no céu – temos apenas várias hipóteses de vida que dependem de diversas circunstâncias, e apenas uma história de vida, aquela de vivemos.

 

Por três ou quatro vezes, a minha vida poderia ter seguido rumos diferentes, poderia ter tido outras histórias de vida. O acaso, não opções conscientes, decidiu o caminho que trilhei. 

 

O nosso namoro era, certamente, igual a todos os namoros daquela época: um ritual com regras estabelecidas e controladas pelos pais para cumprir uma finalidade, o casamento.

 

Foi para mim o primeiro namoro e tardio. Com ingenuidade e a inexperiência da mocidade, o nosso namoro era bordado de coisas simples, era a procura hesitante do conhecimento do outro, o despontar dos afectos, dos sentimentos. Foi um namoro sereno, sem discussões,  ou conflitos: é assim que a minha memória o recorda. Estarei enganado?

 

Namorávamos com a luz acesa, como se estivéssemos em exposição – estávamos em exposição! – e os beijos eram roubados, escondidos.

 

Namorávamos há cerca de três meses (?) quando aconteceu aquela noite nefasta que mudou as nossas vidas. Um Deus sádico, daqueles que se divertem com o infortúnio das mulheres e dos homens, empurrou-nos de uma ravina e ambos caímos.

 

Poucos minutos depois de começarmos a conversar sobre coisas pequenas do quotidiano, tomas-te um ar sério e tenso, pouco habitual em ti, e disseste - Preciso que me prometas uma coisa, que casas comigo.

 

Fiquei surpreendido com o pedido, que não esperava. - Mas porquê essa promessa - respondi meio confuso?

 

Insististe que tinha de  garantir-te  que casávamos. Tentei argumentar que o nosso namoro era recente, que precisávamos de nos conhecer melhor, etc., Esgotei argumentos sem qualquer sucesso. O que estava a acontecer? Parecia-me que a voz impositiva de outra pessoa falava através de ti, não eras tu quem falava.

 

A promessa teria sido muito fácil e não cumpri-la também, queimar tempo, deixar correu as coisas, etc. e quando me apetecesse romper o namoro. Não seria o primeiro, nem iria ser o último, mas esta hipótese, não me passou  pela cabeça.

 

Não tinha a mínima consciência que estava a pisar terreno sagrado e que apenas tinha uma opção: prometer o casamento, mesmo com reserva mental.

 

A tua firmeza aumentou e finalmente a sentença, - Se não prometes casar comigo, o namoro acaba já!

 

Porquê tudo ou nada, Fernanda? O que estava errado no namoro - em mim?  Era um impulso pouco reflectido da tua mocidade?

 

A minha confusão aumentou, a capacidade de argumentar diminuiu, era uma situação  incompreensível para mim. Ainda hoje não compreendo o que se passou naquela malfadada noite e, acredita, entregava a alma ao Diabo para saber.

 

Talvez nenhum de nós esperava  que o namoro acabasse naquela noite, mas foi isso, precisamente,  que aconteceu. Nenhum de nós mediu as consequências daquilo que disse: precipitámo-nos para a queda.

 

É extraordinária a facilidade com que um desencontro  pode acontecer e mudar a vida de duas pessoas.

 

Agimos os dois com  falta senso?  Mudámos o rumo das nossas vidas para sempre.

 

Que mais poderia eu desejar do que casar contigo e ter, finalmente, uma família, uma família que nunca tive?

 

Retirei-me meio atónito, os sentimentos em grande confusão, dorido, sentia-me magoado. Pela primeira vez a ternura feminina tinha entrado na minha vida e, de súbito, esfumava-se.

 

Não entendia o que se estava a passar connosco.

 

Seguiram-se dias, semanas, meses de confusão, de sentimentos contraditórios, lentamente, o tempo encarregou-se  de me conformar com a tua perda mas deixou  marcas: doeu Fernanda.

 

 Para ti também foi doloroso, se não prometia casar era porque não te amava. Sentiste-te desprezada, o amor fugia-te e o casamento também. Que coisa estúpida, uma separação que ambos não desejávamos. Fui tão néscio que nem isto me passou pela cabeça e fui também o único parvo que recusou fazer aquela promessa.

 

Uma asneira nunca vem só, e a seguir fiz outra maior: não voltei a procurar-te. Que absurdo. Afinal, que teria a perder? Não insisti, não lutei por um amor que desejava. Como pude ser tão insensato?!

 

Se,  (a vida não é feita de ses), se… não tivesse ocorrido aquela triste contingência teria casado, contigo, teríamos tido dois ou três filhos e teria ficado a viver em Torres Novas, mas esta história de vida não aconteceu, nunca  foi escrita.

 

A minha vida sempre oscilou entre dois eixos, a passividade e a intranquilidade e  tu talvez conseguisse serenar a minha inquietação.

 

A minha vida sentimental começava mal, seguiu-se outro insucesso com a Julieta – tu, a Julieta e eu, eramos três jovens que procuravam amar, mas como em tudo na vida uns conseguem, outros não.

 

 Porque motivo, há distância de mais de meio século, tenho necessidade desta conversa contigo? Talvez porque até hoje contínuas presente na minha memória, fizeste parte da minha vida, sem termos vivido em comum: num curto período as nossas vidas cruzaram-se:  o primeiro amor nunca se esquece, apenas se refugia nos recantos da memória.

 

A narrativa que acabo de fazer corresponde às recordações da minha memória (má),  não confio nela, posso estar errado. Tens certamente recordações da tua mocidade e deste namoro que serão diferentes das minhas (poderei estar a omitir factos de que não me lembro): a mocidade é um dos períodos mais importantes da nossa vida, por isso escrevo esta espécie de testamento sentimental: é na velhice que as recordações da mocidade são mais importantes.

 

 

 

- Fernanda, quero pedir-te um favor, perdoa a insensatez de um homem que desiludiu a tua esperança.  Foi neste desencontro absurdo que o rumo da minha vida mudou pela primeira vez.

 

A vida  nunca pára, e também não parou para nós: casas-te com o Arlindo, (conheço-o?) tiveste filho e netos, percorres-te a história da tua vida e, com toda a sinceridade, desejo que tenhas sido feliz com o teu marido e  a tua  família.

 

Eu, segui a minha errância e  solidão por terras e pessoas, uma vida que teve outras encruzilhadas,  histórias de vida que não se concretizaram.  Casei, foi feliz, foi infeliz. Se não vivi melhor foi porque não soube.

 

Se a doença da minha mulher permitir, espero encontrar-te brevemente: estamos na idade de perdoar os erros, os dos outros e os nossos, gostava que me recordasses como um homem que te amou e errou e não como alguém que te decepcionou.

 

 

 

 

 

P.S. A doença que martiriza e teu irmão António é uma crueldade da vida.

 

 

 

tags: ,
publicado por pimentaeouro às 00:12