A vida que não vivemos

Ambos bebemos o cálice, ignorando que continha fel. Os meus olhos só viam os teus. Os teus olhos só viam os meus.

O teu sorriso era discreto, quase pudico, o meu era mais expansivo e descuidado – nunca mais foi. Amávamo-nos com a ingenuidade da mocidade, vivíamos o presente e o futuro sem sombras.

Hoje, há distância de décadas, passeio pelas ruas por onde andavas; sento-me no café onde ias ver televisão, na companhia da tua madrasta, segunda mãe, que te acompanhava discreta como se estivesse ausente.

Sento-me na mesa da esplanada, junto ao rio, em tardes quentes de verão, onde conversávamos. Relembro os diálogos despreocupados e a tua ternura contida, o teu gesto interrompido de fazer-me uma carícia na cara.

A felicidade, tocava-nos levemente, tudo era natural e simples. Chamavas-te Julieta, eu, simplesmente, João.

Quando surgis-te na janela, na hora combinada, rompes-te num choro compulsivo, que me deixou atónito, perplexo.

Que se passa? Que te aconteceu? Não percebia o que se estava a passar, o que fazer. O teu choro pareceu-me durar uma eternidade e dentro de mim só havia confusão e desespero.

Como o portão de um castelo, a janela fechou-se. Retirei-me destroçado, como um farrapo, como um trapo que qualquer um deita fora.

Ainda hoje existe na minha memória como a maior alegria e a maior tristeza que me aconteceu.

Ainda existirei na tua memória? Ainda és viva? O que eu não faria para saber.

 

 

 

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publicado por pimentaeouro às 12:20