Corrida de obstáculos

A prostatectomia radical é uma corrida de obstáculos com três fantasmas ao lado; a impotência sexual, a incontinência urinária e ficar «limpo». Só aparentemente a impotência sexual é o maior fantasma. Ficar com células cancerígenas e a incontinência urinária são  piores do que a impotência sexual.

Pode parecer estranho mas é assim que as coisas se passam, na maior parte dos casos. O cancro da próstata está para homem como o cancro da mama está para a mulher, aproximadamente.

O primeiro mutila por dentro, com perdas que podem ser irreversíveis, sem marcas exteriores, o segundo mutila por fora com as marcas e tramas psicológicos que são conhecidas.

O tiro de partida foi dado pela biopsia: “fragmentos de tecido prostático com infiltração por adenocarcinoma SOE, score 7 (4+3) de Gleason modificado, com várias imagens de invasão plurineural, etc., etc., etc.”, numa linguagem menos técnica neoplasia maligna.

O marcador Gleason tem uma escala de 1 a 10 e está relacionado com a esperança de vida pós cirurgia, como tenho 7 não é brilhante, mas adiante.

Com o tiro de partida surge a primeira de muitas angústias. Quando serei operado? Devia ser já amanhã, um problema cuja solução não é fácil.

Pós operação (Maio de 2.005), as angustias aumentam: é uma solidão que nenhuma companhia diminui. Estou frágil, entubado e entregue a contingências sobre as quais não tenho qualquer controlo: só frente ao imprevisto ameaçador.

A corrida com os três fantasmas. Fui difícil ultrapassar o fantasma da incontinência urinária, principalmente, durante a fase de exercícios com uma bola entre as coxas para reactivar os músculos da bexiga. Este foi vencido e deixei de usar o saquinho atado à perna direita. O fantasma da impotência sexual também foi parcialmente derrotado, mas o fantasma das células cancerígenas venceu a corrida.

Seguem-se exames trimestrais ao PSA e respectivas consultas, durante o primeiro ano e semestrais no segundo ano. Cedo, ainda no primeiro ano, o PSA começou a registar valores, que foram progressivamente aumentando até que em Janeiro de 2.008 surgiu a sentença: recidiva bioquímica (quantidade das células cancerígenas a circular no sangue).

A terapia prescrita foi  sessões de radioterapia. Nova bateria de exames, incluindo mais uma cintigrafia, que é um bombardeamento de rádio em todo o corpo. Cheguei a ter marcado na barriga e na pélvis a «zona alvo externa» a «bombardear» e a primeira sessão de rádio marcada.

Duas campainhas de alarme soaram na minha cabeça: a explicação do cirurgião que me operou não foi convincente e as duas consultas, em Santa Maria, com a médica radioterapeuta aumentaram as minhas dúvidas.

Numa consulta de rotina com o médico família, Dr. Fernando Fraga, a quem eu e a minha mulher devemos a prestação de dedicados serviços médicos e até  uma relação de amizade, fui alertado: “ouça outras opiniões porque a radioterapia pós prostatectomia tem uma taxa de insucesso elevada e essa taxa de insucesso traduz-se em incontinência urinária e fecal.

Dois cirurgiões confirmaram este aviso salvador e telefonei para o hospital a desmarcar as sessões de rádio.

Decidi-me a contar esta história porque a terapia de rádio, pós prostatectomia, continua a ser utiliza e gera um número exagerado de mutilações graves: a alternativa de antiandrogénios também tem problemas, mas são menos graves.

 O meu problema agora é o tratamento alternativo da recidiva bioquímica. É um tratamento para o resto da vida.

Com a operação elimina-se o órgão afectado, mas não se elimina o cancro da cabeça…

Se este post servir de alívio para alguém, vale a pena.

 

 

P.S. Reedito este post porque ele contém um aviso que é importante.

O cancro é uma palavra que assusta mas esconder o esqueleto no armário não resolve nada. 

 

  

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publicado por pimentaeouro às 00:51